Depois das chuvas intensas que marcaram o final de janeiro e o início de fevereiro, o sol começa finalmente a brilhar sobre Albufeira. Com ele regressa uma certeza antiga e incontornável: a época balnear aproxima-se e a cidade entra numa verdadeira corrida contra o tempo. Limpam-se ruas, pintam-se fachadas, montam-se esplanadas, revêm-se equipamentos, preparam-se alojamentos e ultimam-se pormenores em casas e estabelecimentos que, dentro de semanas, estarão cheios de visitantes vindos de vários pontos da Europa e do mundo.
Esta fase é sempre exigente. Há pressão, prazos apertados, equipas reduzidas e uma enorme expectativa em torno do que será mais um verão decisivo para a economia local. O turismo continua a ser o principal motor de desenvolvimento do concelho e, por isso, cada época alta é encarada como determinante. No entanto, juntamente com o entusiasmo e as oportunidades, regressam também problemas estruturais que não podem continuar a ser ignorados.
Um desses problemas é visível na Baixa e em zonas emblemáticas como a The Strip – Rua da Oura. Existem arruamentos que se tornaram praticamente monotemáticos, dominados quase exclusivamente por bares e estabelecimentos de animação noturna. Este modelo pode gerar receitas rápidas e atrair um segmento jovem, focado na diversão intensa e concentrada em poucos dias. Contudo, não representa a diversidade turística que durante décadas caracterizou a cidade e o próprio Algarve.
Quem escolhe o Algarve procura muito mais do que música alta e bebidas a baixo custo. Procura gastronomia autêntica, produtos locais, comércio tradicional, experiências culturais, passeios tranquilos e contacto com a identidade da região. Quer descobrir uma loja diferente, comprar artesanato, sentar-se num restaurante familiar, conversar com residentes e sentir que está num destino com história. Quer memórias completas, não apenas noites agitadas.
O problema é que essa diversidade está a desaparecer. O comércio tradicional vai cedendo espaço a negócios repetidos rua após rua. A uniformização da oferta cria um ambiente economicamente frágil e socialmente empobrecido. A curto prazo pode parecer rentável. A médio e longo prazo, compromete a sustentabilidade do destino, reduz a permanência média dos visitantes e afasta segmentos familiares e sénior, que historicamente garantiam estabilidade ao longo do ano.
E há um dado que merece reflexão séria: Albufeira está a perder a sua identidade e, com ela, a capacidade de manter turismo todo o ano. Há cerca de 30 anos, a cidade registava fluxo turístico praticamente contínuo. A diferença entre verão e inverno existia, naturalmente, mas situava-se na ordem dos 25 a 30 por cento. Havia atividade económica permanente, hotéis abertos, restaurantes a funcionar, comércio vivo e ruas com movimento mesmo fora da época alta.
Hoje, a realidade é radicalmente distinta. A quebra sazonal aproxima-se dos 90 a 100 por cento. Passa-se de centenas ou milhares de turistas nas ruas para períodos em que quase não se vê movimento. Este modelo de extremos ou lotação máxima ou vazio quase total não é saudável para a economia local nem para a qualidade de vida dos residentes. Cria dependência excessiva de poucos meses de faturação, gera instabilidade laboral e dificulta qualquer estratégia de planeamento sustentável.
Albufeira nasceu como vila piscatória. Cresceu, modernizou-se e tornou-se cidade. Essa evolução é natural e positiva. Mas o crescimento não pode significar descaracterização. O desenvolvimento urbano e turístico deve preservar referências culturais, arquitetónicas e económicas que distinguem o destino de tantos outros no sul da Europa.
Resgatar a identidade não significa rejeitar o turismo jovem ou a animação noturna. Significa equilibrar. Significa criar condições para que coexistam bares e restaurantes familiares, discotecas e lojas tradicionais, grandes eventos e programação cultural regular, alojamento local e comércio de proximidade. Significa adotar instrumentos de planeamento urbano que limitem a concentração excessiva de um único tipo de atividade económica em determinadas zonas.
Cabe à autarquia, aos hoteleiros, empresários e à comunidade assumirem uma visão estratégica de longo prazo. Incentivos ao comércio tradicional, regulamentação equilibrada do licenciamento, promoção de eventos fora da época alta, valorização da gastronomia regional e aposta em produtos culturais podem contribuir para reduzir a sazonalidade. A diversificação da oferta é um imperativo económico, não apenas uma questão estética ou nostálgica.
Quando uma cidade perde diversidade, perde resiliência. Quando perde identidade, perde competitividade. Num mercado turístico cada vez mais exigente e globalizado, a autenticidade é um ativo estratégico. Destinos que se tornam genéricos tornam-se substituíveis.
A época balnear está à porta. Que venha com sucesso, com taxas de ocupação elevadas, restaurantes cheios e ruas animadas. Que gere emprego e rendimento para quem depende diretamente do turismo. Mas que venha também acompanhada de reflexão. Porque o verdadeiro desafio não é apenas encher no verão; é manter vida durante todo o ano.
Albufeira merece voltar a ser reconhecida pela sua diversidade, pelo seu comércio vivo, pela sua cultura e pelas suas raízes. Precisa de recuperar o equilíbrio que a tornou forte no passado. Crescer, sim. Modernizar, naturalmente. Mas sem perder a alma que a distingue.
O futuro do concelho depende dessa capacidade de conciliar dinamismo económico com identidade. Resgatar essa identidade não é um exercício de nostalgia, é uma estratégia de sustentabilidade. E é agora, antes de mais, um verão intenso, que essa reflexão deve ganhar força. Mas que venha também com consciência. Porque Albufeira merece continuar a ser um destino completo, acolhedor e equilibrado, para quem visita e para quem chama esta cidade de casa.