O auditório municipal de Albufeira recebeu recentemente uma proposta artística singular apresentada pela companhia Luel: “80 Dias à Volta do Mundo”, uma adaptação criativa e ousada do clássico literário que atravessa gerações. O espetáculo transporta o público para uma realidade alternativa situada no contexto da Revolução Industrial, no ano de 1872, onde um inesperado assalto ao Banco de Londres desencadeia uma aposta improvável entre quatro mulheres.
No centro da narrativa encontra-se Filipa Fogg, uma mulher determinada e visionária que acredita ser possível dar a volta ao mundo em apenas 80 dias. A sua convicção é imediatamente posta à prova quando Dolores, Agnes e Alberta a desafiam a demonstrar que tal feito é realmente possível. Da dúvida nasce a aposta, e dessa aposta surge uma viagem extraordinária que coloca em marcha não apenas uma corrida contra o tempo, mas também uma reflexão sobre o próprio significado do tempo na vida humana.
Acompanhada pela sua fiel companheira Margot Passpartout, Filipa parte numa aventura que atravessa continentes, culturas e desafios inesperados. Pelo caminho, as duas viajantes enfrentam obstáculos, encontros improváveis e momentos que testam a sua determinação. O público é convidado a questionar, juntamente com as protagonistas, se a viagem depende apenas da sorte ou se existem outras forças sociais, humanas ou até simbólicas que influenciam o desenrolar do percurso.
A proposta cénica da Luel distingue-se pela fusão de várias artes performativas. Teatro, movimento, música e expressão visual unem-se num mesmo palco para criar uma experiência imersiva que ultrapassa os limites tradicionais da narrativa teatral. Esta combinação de linguagens artísticas permite que a história seja contada não apenas através das palavras, mas também através da emoção, do ritmo e da presença física dos intérpretes. O resultado é um espetáculo dinâmico, envolvente e visualmente rico, onde cada elemento contribui para a construção de uma viagem coletiva.
Mais do que revisitar um clássico, a adaptação propõe uma reflexão contemporânea. A pergunta central deixa de ser apenas “é possível dar a volta ao mundo em 80 dias?” e transforma-se numa questão mais profunda: como usamos o tempo que temos? Ao longo das gerações, a ideia de sucesso e prosperidade foi muitas vezes associada à posse material. Hoje, contudo, o tempo começa a assumir um novo valor. O tempo para viver, para criar, para estar com os outros e para construir experiências significativas.
É neste contexto que o espetáculo convida o público a refletir sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida. Em que “comboio” decidimos entrar quando a vida nos oferece um bilhete? Que caminhos seguimos? E quem nos tornamos no final dessa viagem?
A apresentação contou com uma forte adesão do público, enchendo o auditório com espectadores atentos e envolvidos na narrativa. A sessão contou também com a presença de várias figuras institucionais, entre elas o presidente da Junta de Freguesia de Albufeira e Olhos de Água Claúdio Marujo, a presidente da Assembleia Municipal de Albufeira, Luna Silva, e a vereadora Cláudia Guedelha.
No final, ficou evidente que esta produção da Luel vai muito além de uma simples adaptação literária. Trata-se de um espetáculo cuidadosamente construído, interpretado com grande qualidade por todo o elenco e capaz de transformar uma história clássica numa reflexão atual sobre o tempo, a ambição e o sentido da viagem humana.



















































































































































































































































































































































































































