Desloquei-me a Lisboa para acompanhar a apresentação de uma obra que vai muito além de um simples livro de medicina. O Renascimento do Médico Humanista, da autoria do ilustre médico Vítor Coutinho, constituiu o pretexto para uma reflexão profunda sobre o futuro da medicina e o papel insubstituível da relação humana entre médico e doente. A sessão, realizada na Biblioteca da sede da Ordem dos Médicos, reuniu algumas das mais prestigiadas figuras da medicina portuguesa, entre elas o Bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, e o Professor Doutor Daniel Sampaio. Num tempo em que a inteligência artificial ganha um protagonismo crescente nos cuidados de saúde, foi particularmente marcante ouvir três médicos defenderem que nenhuma inovação tecnológica poderá substituir a empatia, a escuta e a confiança que estão na essência do verdadeiro ato de cuidar.







Num momento em que a inteligência artificial assume um papel cada vez mais relevante na medicina, a apresentação do livro O Renascimento do Médico Humanista, de Vítor Coutinho, transformou-se numa reflexão sobre a importância de preservar a dimensão humana da profissão médica. A sessão decorreu a 15 de julho, na Biblioteca da sede da Ordem dos Médicos, em Lisboa, e contou com as intervenções do Bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, e do Professor Doutor Daniel Sampaio.
Carlos Cortes defendeu que a inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta ao serviço dos médicos, permitindo libertar tempo para aquilo que considera essencial: ouvir, acompanhar e cuidar dos doentes. Sublinhou ainda que o conhecimento científico deve continuar a caminhar lado a lado com a ética, a compaixão e a relação de confiança entre médico e doente.
Autor da obra, Vítor Coutinho explicou que o livro resulta de anos de reflexão e da experiência de ter vivido a medicina como médico e como doente durante a pandemia. Defendeu uma abordagem biopsicossocial “é uma abordagem que compreende a saúde e o comportamento humano pela integração de três dimensões: biológica (genética, fisiologia), psicológica (emoções, pensamentos, crenças) e social (ambiente, cultura, relações)”, capaz de compreender cada pessoa na sua totalidade, valorizando fatores como a saúde mental, a família, as relações sociais e o contexto de vida.
Na apresentação da obra, Daniel Sampaio destacou a importância da comunicação clínica, lembrando que saber escutar continua a ser uma das competências mais valiosas da prática médica. Para o psiquiatra, a formação dos futuros médicos deve reforçar o ensino da relação humana e da comunicação com os doentes.
A sessão deixou uma mensagem comum: a tecnologia continuará a transformar a medicina, mas nunca substituirá a empatia, a confiança e a proximidade que definem o verdadeiro ato de cuidar.
Num tempo em que a inteligência artificial promete revolucionar a medicina, três médicos reuniram-se em Lisboa para recordar uma verdade que nenhuma máquina conseguirá substituir: cuidar continua a ser, antes de tudo, um ato profundamente humano.
LISBOA — Nunca a medicina dispôs de tantos recursos tecnológicos. A inteligência artificial já interpreta exames imagiológicos com níveis de precisão impressionantes, algoritmos ajudam a prever diagnósticos, sistemas inteligentes apoiam decisões clínicas e a cirurgia robótica ganha espaço em hospitais de todo o mundo.
Perante esta transformação sem precedentes, seria legítimo pensar que o futuro da medicina pertence exclusivamente às máquinas.
Mas foi precisamente a ideia contrária que dominou a tarde de 15 de julho, na Biblioteca da sede da Ordem dos Médicos, em Lisboa.
Ali, entre estantes repletas de conhecimento acumulado ao longo de séculos, médicos, académicos e convidados reuniram-se para discutir um futuro onde a tecnologia será indispensável, mas onde continuará a existir algo que nenhuma inovação conseguirá replicar: a relação humana entre médico e doente.
Foi esse o espírito que marcou a apresentação de “O Renascimento do Médico Humanista”, da autoria do médico Vítor Coutinho, numa sessão que contou com as intervenções do Bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, e do Professor Doutor Daniel Sampaio.
Mais do que o lançamento de um livro, assistiu-se a uma reflexão sobre aquilo que verdadeiramente distingue a medicina de qualquer outra ciência.
Porque tratar doenças pode tornar-se cada vez mais tecnológico.
Mas cuidar de pessoas continuará inevitavelmente a ser humano.
A tecnologia pode acelerar diagnósticos. Nunca substituir a confiança.
Na intervenção de abertura, Carlos Cortes colocou imediatamente o debate no centro dos desafios que hoje atravessam a profissão médica.
A inteligência artificial, afirmou, representa uma oportunidade histórica para aumentar a capacidade de diagnóstico, reduzir erros, apoiar decisões clínicas e libertar milhares de horas atualmente consumidas por tarefas administrativas.
Mas deixou igualmente um aviso claro.
O verdadeiro sucesso desta revolução tecnológica não será medido pelo número de algoritmos implementados nem pela velocidade dos computadores.
Será medido pelo tempo que os médicos conseguirem recuperar para os seus doentes.
Ouvir com atenção.
Explicar um diagnóstico.
Responder a uma dúvida.
Consolar perante uma má notícia.
Criar confiança.
São gestos aparentemente simples, mas constituem a essência da prática clínica.
Na perspetiva do Bastonário, a tecnologia só cumprirá plenamente a sua missão se devolver aos profissionais precisamente aquilo que a burocracia lhes foi retirando ao longo dos anos: disponibilidade para cuidar das pessoas.
A medicina, recordou, sempre assentou em dois pilares inseparáveis.
O conhecimento científico.
E a relação humana.
Nenhum deles poderá sobreviver sem o outro.
Um médico que conheceu os dois lados da cama hospitalar
Carlos Cortes fez ainda questão de destacar a singularidade da obra apresentada.
Vítor Coutinho escreve não apenas como médico, mas também como alguém que viveu a experiência da doença.
Durante a pandemia de COVID-19 passou da posição de quem trata para a condição de quem necessita de ser tratado.
Essa mudança de perspetiva marcou profundamente a forma como passou a olhar para a profissão.
Quem atravessa a fragilidade da doença compreende de forma diferente o silêncio, a espera, a incerteza e a necessidade de encontrar, no outro lado da consulta, alguém que saiba verdadeiramente escutar.
Essa vivência atravessa todo o livro.
Sem dramatismos.
Sem sentimentalismo.
Mas com a serenidade de quem percebeu que o conhecimento científico, por mais sofisticado que seja, nunca elimina a vulnerabilidade humana.
Coimbra, o lugar onde a medicina também se aprende fora das salas de aula
Quando tomou a palavra, Vítor Coutinho começou por agradecer a presença de colegas, familiares e amigos.
Fê-lo recordando que nenhuma carreira médica se constrói isoladamente.
Evocou depois Coimbra.
A cidade onde estudou.
Onde se tornou médico.
E onde descobriu que exercer medicina significa muito mais do que dominar conhecimentos científicos.
Foi ali, recordou, que aprendeu a importância da literatura, da filosofia, da música, da história e da cultura na formação de um médico.
Porque compreender o ser humano exige muito mais do que compreender o funcionamento do corpo.
Exige conhecer as emoções, os medos, os sonhos e as circunstâncias que moldam cada pessoa.
Essa visão percorre toda a obra.
As crónicas reunidas cruzam ciência, ética, espiritualidade, felicidade, inteligência artificial, viagens, história e reflexão social.
À primeira vista parecem temas distintos.
Na realidade convergem numa única pergunta.
Como compreender melhor quem temos diante de nós?
Daniel Sampaio: escutar continua a ser uma competência clínica
Coube a Daniel Sampaio apresentar a obra.
O psiquiatra identificou imediatamente aquilo que considera ser o seu maior mérito.
Num momento em que a medicina evolui a uma velocidade sem precedentes, o livro lembra que a relação médico-doente permanece insubstituível.
Recorrendo à tradição humanista da medicina, evocou Hipócrates e Amato Lusitano para recordar que um bom médico nunca dependeu apenas do conhecimento técnico.
Depende igualmente da cultura.
Da capacidade de pensar criticamente.
Da sensibilidade.
E da comunicação.
Segundo Daniel Sampaio, cada consulta representa um encontro irrepetível entre duas pessoas.
As palavras escolhidas pelo médico podem aliviar sofrimento.
Mas também podem criar medo.
Uma frase dita sem cuidado.
Um silêncio mal interpretado.
Um olhar ausente.
Tudo isso permanece muitas vezes gravado durante anos na memória de quem procura ajuda.
Por essa razão defendeu que as escolas médicas devem investir cada vez mais no ensino da comunicação clínica.
Escutar também se aprende.
E aprender a escutar poderá ser, no futuro, tão importante como aprender a interpretar uma ressonância magnética.
Um novo humanismo para uma nova medicina
Na parte final da sessão, Vítor Coutinho desenvolveu a ideia central da obra.
O humanismo clássico continua plenamente válido.
Mas os desafios atuais exigem ampliar essa visão.
Hoje não basta tratar doenças.
É necessário compreender a pessoa na sua totalidade.
A família.
O contexto económico.
A saúde mental.
As relações sociais.
Os hábitos de vida.
A solidão.
O isolamento.
As desigualdades.
Todos estes fatores condicionam profundamente a saúde.
Foi por isso que defendeu uma abordagem verdadeiramente biopsicossocial.
Uma medicina capaz de integrar ciência, ética e responsabilidade social.
Porque um doente nunca é apenas um conjunto de órgãos.
É uma história.
Uma biografia.
Uma vida inteira.
A inteligência artificial muda os instrumentos. Não muda a essência.
Ao longo de toda a sessão, a inteligência artificial esteve constantemente presente.
Mas curiosamente nunca surgiu como uma ameaça.
Nem Carlos Cortes.
Nem Daniel Sampaio.
Nem Vítor Coutinho.
Nenhum defendeu uma oposição entre tecnologia e medicina humanista.
Pelo contrário.
Os três convergiram na mesma ideia.
A inteligência artificial deverá assumir as tarefas repetitivas.
Interpretar grandes volumes de dados.
Apoiar decisões.
Melhorar diagnósticos.
Reduzir erros.
Mas continuará a existir um instante impossível de automatizar.
Aquele momento em que um doente entra num consultório carregando medo, ansiedade ou sofrimento e procura, antes de qualquer resposta clínica, alguém em quem possa confiar.
É nesse instante que a medicina continua verdadeiramente a acontecer.
Muito mais do que um livro
Quando a sessão terminou, percebeu-se que o verdadeiro protagonista daquela tarde não tinha sido apenas uma obra publicada.
Tinha sido uma ideia.
A convicção de que o extraordinário progresso científico das próximas décadas exigirá um reforço igualmente profundo da dimensão ética e humana da medicina.
Quanto mais sofisticadas forem as máquinas, maior será a responsabilidade de preservar aquilo que elas nunca conseguirão oferecer.
Empatia; Compaixão; Presença; Escuta; Confiança.
Num século em que a inteligência artificial promete revolucionar a medicina, “O Renascimento do Médico Humanista” lembra que nenhuma tecnologia substituirá aquilo que acontece quando um médico escuta verdadeiramente um doente. Os algoritmos poderão interpretar exames, antecipar diagnósticos e apoiar decisões clínicas. Mas a confiança, a empatia e a compaixão continuarão a nascer apenas do encontro entre duas pessoas.
Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro desafio da medicina do futuro: garantir que, quanto mais evoluírem as máquinas, mais humana permaneça a arte de cuidar.
Porque a medicina poderá mudar de instrumentos.
Mas nunca deixará de ser, antes de tudo, uma relação entre pessoas.
Nuno Machado
Jornalista