LOULÉ QUER FAZER DO ALGARVE A CAPITAL DA CULTURA

A candidatura vale 74 milhões de euros, junta municípios, instituições, universidade e agentes culturais e quer transformar 2028 num ponto de viragem para uma região habituada a ser procurada pelo sol, mas que agora quer ser reconhecida pela cultura.

LOULÉ — Há uma frase que resume a ambição e também a dimensão do desafio: «Se Loulé for Capital Portuguesa da Cultura, o Algarve será Capital juntamente com Loulé.» Telmo Pinto não falou apenas de um título. Falou de uma região que quer deixar de ser vista apenas como destino turístico e passar a apresentar-se como território de cultura, conhecimento, património e criação.

Foi esta a mensagem que dominou a apresentação da candidatura Loulé 2028, no Palácio Gama Lobo. Uma candidatura que nasceu num município, mas que pretende chegar muito mais longe. À mesa estavam a Câmara de Loulé, a CCDR Algarve, a Região de Turismo do Algarve, a AMAL e a Universidade do Algarve. Nos bastidores, uma rede de instituições, artistas, associações, escolas e cidadãos.

A dimensão da aposta mede-se também em dinheiro: 7 milhões de euros para o programa cultural entre 2027 e 2030 e 67 milhões para equipamentos culturais. Ao todo, 74 milhões de euros de investimento previstos num projeto que, segundo os seus responsáveis, não depende da conquista do título para avançar.

É aqui que a candidatura ganha outra dimensão. Loulé não está apenas a disputar 2028. Está a tentar usar 2028 como acelerador de uma política cultural que quer deixar marcas depois de o calendário virar para 2029.

«Isto não é uma candidatura para um ano», afirmou Dália Paulo, diretora executiva. «É uma candidatura que vai ficar e que vai transformar a nossa maneira de viver no Algarve.»

A frase ajuda a perceber a estratégia. O título é o objetivo imediato. O legado é a aposta de longo prazo.

UM ALGARVE ALÉM DO SOL

Durante décadas, o Algarve foi vendido sobretudo como destino de férias. Mar, praia, hotelaria, restauração, golfe e sol construíram uma das marcas turísticas mais fortes do país. Agora, Loulé quer acrescentar outras palavras ao retrato.

Serra. Barrocal. Património. Arte. Conhecimento. Comunidades.

Telmo Pinto colocou a questão de forma direta: «O Algarve precisa de se afirmar como região, não como uma soma de 16 concelhos.»

É uma mudança de escala. Em vez de cada município disputar isoladamente recursos, visitantes e atenção, a candidatura quer apresentar uma região capaz de falar a uma só voz.

A presença da CCDR e da Região de Turismo do Algarve procura precisamente dar consistência a essa estratégia.

José Apolinário, presidente da CCDR Algarve, enquadrou a candidatura numa visão de desenvolvimento territorial através da cultura. André Gomes, presidente da Região de Turismo, foi ainda mais direto ao falar de uma candidatura de Loulé «na qual todo o Algarve se revê».

A mensagem política e institucional é, portanto, clara: Loulé apresenta-se, mas quer levar o Algarve consigo.

74 MILHÕES E UM LEGADO

Os números são suficientemente grandes para impedir que a candidatura seja vista apenas como uma operação de promoção cultural.

Dos 74 milhões previstos, 7 milhões destinam-se diretamente à programação da candidatura entre 2027 e 2030. Os restantes 67 milhões correspondem a investimentos em equipamentos culturais.

Entre eles está o Centro de Educação e Cultura de Quarteira, com um orçamento de 28 milhões de euros, e o Casino Velho de Quarteira, com um investimento previsto de 8 milhões.

E há uma garantia política importante: mesmo que o título não venha para Loulé, os equipamentos estão previstos para avançar.

«Estes investimentos são para fazer todos, estão todos projetados», garantiu Telmo Pinto.

A candidatura deixa assim de depender exclusivamente de um júri e de uma decisão final. O investimento cultural é apresentado como uma política própria do município.

UMA CANDIDATURA FEITA POR MUITAS MÃOS

Carolina Santos, diretora artística, insistiu numa ideia que atravessa todo o projeto: ninguém está a construir sozinho a candidatura.

As 11 freguesias foram chamadas a participar. Foram ouvidos artistas, associações culturais e recreativas, escolas, agrupamentos escolares, IPSS, organizações sociais e associações de migrantes.

Existe ainda uma caixa de ideias aberta aos cidadãos.

«O programa é de todos», afirmou Carolina Santos.

A candidatura conta também com Lídia Jorge, Dino d’Santiago e Ricardo Neves-Neves como embaixadores culturais.

Dália Paulo admite que o dossiê poderia já estar entregue. O adiamento do calendário permitiu, contudo, ganhar tempo para aperfeiçoar o projeto.

«Em vez de ter um dossiê bom, no tempo que temos, agora queremos excelência», afirmou.

O DIA SEGUINTE

É talvez aqui que Loulé coloca a fasquia mais alta. Porque ganhar o título significa ocupar o centro da atenção cultural portuguesa durante 2028. Mas perder não significa, segundo os responsáveis, voltar ao ponto de partida.

A intenção é deixar equipamentos, profissionais mais capacitados, novos públicos, redes culturais e uma economia criativa mais forte.

O verdadeiro teste será saber se essa visão consegue ultrapassar as fronteiras de Loulé e criar uma dinâmica efetivamente regional.

Por agora, a candidatura já conseguiu uma coisa: obrigar o Algarve a falar de si próprio para além do turismo.

E talvez seja essa a verdadeira dimensão de Loulé 2028.

Não se trata apenas de saber quem será Capital Portuguesa da Cultura. Trata-se de saber se, em 2028, o Algarve estará finalmente preparado para se apresentar ao país como muito mais do que um destino de férias.

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